Blog do Ronaldo

sexta-feira, outubro 09, 2009

A gentileza que nos falta

Gosto demais dos textos da jornalista Eliane Brum. Embora seja necessário gastar tempo para ler o que ela escreve, vale a pena cada palavra. Nesta semana, a coluna dela na Época trata de algo que anda em falta, a gentileza. Falta-nos disposição para sermos gentis. Ocupados demais, estamos sempre mau humorados. Entretanto, a gentileza que nos falta sentimos sua ausência nos outros. Às vezes, em pequenas coisas. Mas, como diz Brum:

- Até é possível reivindicar boa educação – embora seja cada vez mais difícil. Mas é impossível exigir gentileza.

A falta de gentileza parece ter relação com algo que já discuti aqui, nossa disposição à intolerância. Não é difícil notar que as pessoas pouco praticam a tolerância. Sintoma do individualismo, que também rouba do homem sua capacidade de ser gentil.

E, por incrível que pareça, ainda que possamos racionalizar e considerar naturais tais sintomas da sociedade pós-moderna, a ausência de determinados comportamentos pode ser sentida, pois nossa humanidade reclama por bondade.

- Se cada um de nós fizer uma reconstituição mental do nosso dia, hoje mesmo, vai perceber que o pior dele foi causado porque não foram gentis conosco nem fomos gentis com os outros. Desde o bom dia que faltou, o por favor que não foi dito, a buzina desnecessária no trânsito, a cara fechada, o sorriso que economizamos, a ajuda que poderíamos ter dado e não demos, ou ainda a que não recebemos, o elogio que não veio, a crítica que deveria ter sido feita para somar, mas foi programada para massacrar, o veneno que escorreu da nossa boca e da dos outros. Uma soma de pequenos e desnecessários gastos de energia que só serviram para nos intoxicar.

Eliane Brum continua:

- Hoje, tratar mal as pessoas, marchar pelos corredores, fechar a cara, não dar bom dia e dizer coisas duras sem nenhum cuidado parece ser um atributo dos poderosos. Quase uma virtude.
Lamentável, não?

Talvez, para concluir, seja necessário lembrar o que é ser gentil. Afinal, se já não mais encontramos gentileza, é importante recordar.

Gentileza é o exercício cotidiano de vestir a pele do outro. É cuidar não de alguém, mas de qualquer um. Mesmo que ele não seja nosso parente, mesmo que seja um estranho. Cuidar por nada. Sem precisar de motivo. Cuidar por cuidar. [...] O resgate desta gratuidade, de algo que é dado sem esperar nada em troca, é o que faz nosso mundo estremecer.

Nenhum comentário: